domingo, 1 de novembro de 2009

Há momentos em que as palavras se tornam ruídos inúteis...

A Minha Alma Partiu-se.
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira?
Impossível?
Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia. Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam o caco que a criada deles fez de mim. Não se zanguem com ela. São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio? Olham os cacos absurdamente conscientes, Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles. Olham e sorriem. Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas. Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra?
A minha alma principal?
A minha vida?
Um caco. E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali. **********
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...
Álvaro de Campos, in "Poemas"

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